Compras colaborativas entre vizinhos: saiba como fazer

Existem muitos tipos de vizinhos. Alguns se limitam a dividir apenas alguns segundos no elevador. Outros

criam verdadeiros laços de amizade. E há quem compartilhe até mesmo as compras de casa. É isso

mesmo. Com diferentes motivações, que vão da busca por alimentos mais saudáveis e baratos até a

consciência social, iniciativas de colaboração têm mudado a forma como as pessoas se relacionam

com a comida (e entre si).

Interessada em adquirir alimentos orgânicos, a comerciante Zaira Demartini, moradora de Vila

Valqueire, Zona Oeste do Rio de Janeiro, geralmente precisava recorrer a mercados que ficam muito

distantes de casa. A situação ficou um pouco mais fácil quando ela passou a fazer parte de um

grupo no Facebook dedicado a compras coletivas.

O funcionamento é simples: um organizador abre uma lista de compras virtual, os interessados

acessam a planilha aberta, marcam os produtos que desejam adquirir e, geralmente, realizam o

depósito antecipado dos valores. Em uma data já determinada, buscam os produtos diretamente com

o organizador (que pode morar no mesmo bairro) ou com alguém que se voluntariou para armazená-los

em casa, o chamado deslocador. Algumas listas contam com diversos deslocadores, e os participantes

podem escolher a região mais próxima.

O funcionamento é simples: o organizador abre uma lista de compras virtual, os interessados acessam

a planilha, marcam os produtos e realizam o depósito

A lista é disponibilizada por produtores rurais ou mesmo por pessoas que não têm nenhuma relação

direta com o campo, mas acabam fazendo negociações no atacado. Assim, conseguem preços mais

vantajosos do que os praticados nas redes varejistas, além de terem acesso a produtos e marcas que

poderiam não estar disponíveis. Tudo de forma transparente e organizada.

Mas, para Zaira Demartini, a ideia de adotar as compras coletivas também permitiu estabelecer vínculos

que vão além das compras, inclusive extrapolando o ambiente virtual. “Não é só uma rede de compras.

Hoje, formamos um grupo de pessoas que fazem parte das vidas umas das outras. Conheci pessoas que

eram praticamente vizinhas e talvez eu nunca encontrasse”, conta.

O primeiro passo foi a entrada no grupo Comida da Gente Rio de Janeiro – Rede de Compras

Colaborativas, que contava, até o fechamento desta edição, com mais de 34 mil membros. “Mas,

quando entrei, não era esse monte de gente. Eram 2 mil pessoas, a maioria na Zona Sul. As

compras eram todas recebidas lá, e era complicado e dispendioso me deslocar sempre do

Valqueire até lá”, explica Zaira.

“Estimulada pela Tatiana (Dutra, uma das fundadoras do Comida da Gente), criei um grupo

específico para a minha região. O início foi complicado, a gente até tinha que comprar

quantidades maiores por pessoa para alcançar o limite mínimo da encomenda.

Mas aí as pessoas foram começando a entrar, a aderir à ideia, e começamos a

crescer com nossas próprias pernas”, explica Zaira, hoje administradora do

Comida da Gente Valqueire, com cerca de 370 membros ativos.

Um dos benefícios das compras colaborativas é a democratização do acesso a produtos

difíceis de encontrar ou mais caros, como alimentos orgânicos

Uma das criadoras do “grupão” original, a produtora Tatiana passou a investir nas compras

coletivas por acaso: “Eu e meu marido conhecemos um produtor, que estava plantando tomate

orgânico, e ficamos interessados em adquirir.” Assim, em novembro de 2013, abriu o grupo Tomate

da Gente, que ajudaria a distribuir uma safra de mais de uma tonelada excedente da fruta.

A primeira remessa semanal foi de 20kg de tomate. No final do mês, foram 200kg. “Os amigos

foram marcando os seus amigos, e, de repente, começamos a receber gente vinda do Grajaú e de

Niterói”, conta a moradora da Glória, Zona Sul do Rio de Janeiro. Quando a safra acabou, os

participantes perceberam que era possível ir mais longe. Assim, o Tomate da Gente virou Comida

da Gente.

“Morei 12 anos fora do Brasil, consumi orgânicos e sei o quanto nosso alimento (tradicional) é

contaminado. Aqui é difícil encontrar, e, muitas vezes, o produto é caro e ‘feinho’. Há as feiras

orgânicas, que são incríveis, mas acontecem principalmente nos bairros nobres e em dias específicos”,

ressalta. A partir da ideia inicial, de estabelecer uma rede de amigos que tivessem hábitos similares

para uma distribuição pontual, a coisa foi crescendo.

“Várias pessoas passaram a abrir listas diferentes. O grupo passou a se autogerir, não tem curadoria

nenhuma. O princípio norteador é: qualquer iniciativa é válida se tem significado para você”, defende.

Hoje em dia, entre dezenas de listas abertas simultaneamente, é possível adquirir hortaliças e grãos,

além de mel, queijo, chocolate artesanal, sabonete vegetal, produtos de limpeza e cosméticos naturais,

entre outros.

Só uma lista de arroz orgânico, revela Tatiana, pode representar 1,5 tonelada por mês. Mas como

manter o processo dinâmico e livre de crises, em especial considerando o pagamento antecipado dos

produtos? “O grupo hoje tem mais de 30 mil pessoas, mas os problemas que temos são os mesmos que

tínhamos quando éramos 40 membros. Já houve consumidor que reclamou do peso, produtor que não

conseguiu colher a safra esperada e teve que reembolsar… Mas não é nada que não dê para resolver”,

explica.

Para ampliar o trabalho, o Comida da Gente está operando em uma plataforma tecnológica que conta

com ferramentas para facilitar os pedidos e o processo de distribuição. A ideia é que ela reúna todos os

subgrupos (atualmente, são 29, sendo 17 fora do Rio de Janeiro), integrando ainda mais consumidores e

produtores.

Foi a partir de um objetivo similar que nasceu o projeto Cesta Camponesa, uma parceria do Movimento

de Pequenos Agricultores e da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Com

núcleos de distribuição ativos nos bairros de Botafogo, Cantareira (Niterói), Catete/Laranjeiras

, Copacabana, Estácio, Lapa e Tijuca, é possível adquirir um mix de produtos agroecológicos e

retirá-los, uma vez por semana, geralmente em locais de grande circulação, como praças ou

nas saídas de estações de metrô.

No caso do Cesta Camponesa, o processo é iniciado com a escolha do núcleo. Em seguida, o interessado

recebe login e senha para ter acesso às ofertas disponíveis naquela localidade durante o período. Aí,

basta selecioná-los, com um carrinho virtual, e finalizar a compra, que deve ter valor mínimo de

R$ 50. O pagamento é feito no momento da retirada (e, para deixar tudo mais sustentável, o

consumidor é orientado a levar sua própria sacola retornável).

Diferente do Comida da Gente, o Cesta Camponesa nasceu a partir de um projeto de extensão na

universidade. “Estávamos em um trabalho de campo com os agricultores e vimos que um dos

problemas era a comercialização”, conta Beto Ribeiro, porta-voz do projeto.  Assim, no segundo

semestre de 2015, foi ao ar o portal www.cestacamponesa.com.br.

Para colaborar com agricultores familiares na comercialização dos seus produtos, Beto ajudou a criar o

Cesta Camponesa

Nas primeiras retiradas, o grupo contava com apenas um núcleo de distribuição, mas o boca a boca

ajudou a ampliar a demanda e a descentralizar os pontos. “Aí nasceram os novos grupos, motivados

por pessoas que moram perto e se mobilizaram”, conta Beto. “Nossa ideia é ir para outros bairros,

contando com pessoas em associações de moradores e condomínios. Dependendo do pedido,

é possível até mesmo fazer as entregas por hora marcada”, acrescenta. A orientação do

projeto é que, para amortizar os custos com frete, sejam montados grupos de pelo menos

cinco vizinhos.

Motivação pode ir do interesse em produtos mais rastreáveis aos preços mais baixos que os praticados

no varejo

“Os consumidores têm um perfil bem eclético. Há quem ache importante ter acesso à produção direta

do produtor, mas também quem se motive pela qualidade dos alimentos, que não têm agrotóxicos e são

entregues em menos de 24 horas após colhidos. E tem a questão dos preços, que são iguais ou menores

aos praticados nos mercados para o mesmo tipo de produto”.

Todos esses fatores são levados em consideração pela professora Leile Teixeira, que aderiu ao projeto.

“Já vinha buscando eliminar a comida de rua. Aí, no meu doutorado, estudei a condição da fome e a

alimentação no Brasil. Então, tenho um vínculo político muito forte com essa causa, além da

preocupação com a saúde”, defende.

E se, para muita gente, o consumo de orgânicos pode parecer complexo e ainda limitado, Leile

garante que só é preciso pesquisar um pouco sobre os benefícios e as alternativas para ter acesso

a eles: “Exceto alguns itens sazonais, praticamente tudo que como vem da cesta. Além de trazer

para a mesa a lógica das famílias do campo, ainda tenho um alimento mais saboroso do que aquele

que eu comprava no mercado.”

 

FONTE: SÍNDICO NET